top of page

Parte 3: Alvorescer

Foto do escritor: Alvorada Obscura
Alvorada Obscura
há 2 horas
8 min de leitura

A menina estava completamente sedenta pelo primeiro botão gerado nela, e acabou não ouvindo a bruxa. Ignorando que estava sendo observada, continuava prestes a forçar a abertura de sua pétala mais promissora — ainda que hesitasse, estava claro que cederia à tentação.


A bruxa ficou chocada ao ver a jovem prestes a mutilar-se. Não sabia o que fazer; fora tomada pelas imagens de todos os botões que ela mesma havia abortado, e aquilo lhe doeu de verdade. No entanto, precisava agir, e logo. Respirou fundo e fez uma prece a Perséfone, pedindo que lhe concedesse as palavras certas e que não a deixasse desmoronar diante de uma estranha a quem apenas oferecera hospitalidade. Elas vieram, mas foram muito mais trêmulas do que ela pretendia:


— É difícil mesmo perder o hábito de arrancar as casquinhas dos machucados. Mas ainda mais difícil é entender que não há necessidade de violar sua beleza e se machucar o tempo todo.


A moça despertou do transe e se virou em direção à porta, o choque estampado no rosto. Ao ver a expressão da jovem, a bruxa fez uma pausa, tentando se desvencilhar do turbilhão em sua mente.


— Poucas pessoas vão reconhecer seus esforços; você mesma terá que aprender a respeitá-los. Desejo profundamente que seja mais fácil para você do que tem sido para mim.

Encostou-se então na pia, olhando para a outra parede, para dar espaço à moça para se vestir e se desvencilhar do embaraço — mas, principalmente, para ocultar o próprio semblante ainda muito abalado.


Muitos sentimentos disputavam agora o coração da moça: vergonha, remorso, raiva por ter sido exposta. Mas a voz da bruxa carregava melancolia quando lhe fez aquele último voto, e algo inédito despertou nela. Sem entender por quê, as raízes da jovem se esticaram, desejosas de alcançar aquela mulher em um abraço. Mas a bruxa já estava se afastando, mais uma vez. Antes de se retirar, disse apenas que o vestido estava pendurado na porta. Orientou também que seguisse para o aposento no fim do corredor, onde estaria esperando por ela.


A moça saiu da tina de madeira, alcançou uma toalha e se secou com cuidado. Ao tocar a própria haste floral, seu toque ficou ainda mais aveludado, como se pudesse, assim, oferecer um afago à voz tão embargada da bruxa. Um peso desconhecido a acompanhou pelo resto da noite, e ela se apressou em deixar o banheiro, sentindo que já perturbava demais aquela casa só por existir ali. Pendurou a toalha na janela, pois sabia que não teria coragem de pedir orientações mais certeiras à bruxa. Juntou seus pertences na mochila de peregrina e seguiu em direção ao quarto que a bruxa lhe indicara.


O aposento era bastante simples. Do outro lado da porta havia uma janela, e logo abaixo dessa uma escrivaninha com alguns livros abertos e cadernos manuscritos; ao lado, mais uma estante com livros e vasos de plantas. Um baú e uma mesa de cabeceira com itens ritualísticos completavam o conjunto de mobiliário, junto à pequena cama onde a bruxa já estava deitada — embrulhada num cobertor até o pescoço, num sono claramente fingido.

Ao lado da cama, a uma distância desconfortavelmente próxima, havia um colchão no chão, com um travesseiro e dois cobertores por cima — mais do que o calor daquela noite pedia. Seria aquilo ali um gesto de cuidado? A pergunta confundiu os pensamentos da jovem, que se apressou em deitar-se antes que seus devaneios a enrascassem de novo.


Ao se aproximar, jurou ter visto a bruxa abraçada a uma boneca estranhamente parecida com sua anfitriã, mas não teve coragem de sustentar o olhar por tempo suficiente para ter certeza. Viu também, aos pés da cama, um caixote envernizado — claramente uma mesa de centro improvisada, ainda que feita com capricho. Sobre ele, um caldeirão tampado com uma concha dentro, além de duas tigelas e colheres. Mas até ela, em sua inexperiência, percebia que não era só ela quem estava desconfortável demais para compartilhar qualquer coisa — ainda mais uma refeição. Além do mais, a consciência da própria imprudência e a voz quase chorosa da bruxa lhe roubaram por completo o apetite. Deitou-se e, imitando a dona da casa, cobriu-se até o pescoço com uma das mantas, adormecendo profundamente.


Belos e incertos devem ter sido os presentes secretos de Morfeu naquela noite. É uma pena não alcançarmos o território onírico dos outros, pois com toda a certeza algo inédito deve ter percorrido o sono das duas mulheres. Assim que Eos se levantou do leito do seu amado, tingindo de rubro o primeiro romper da aurora, a primavera se anunciou esplendorosamente: de súbito, ambas, anfitriã e hóspede, acordaram.


As pétalas de ambas tremulavam e, num impulso, como que em transe, foram chamadas para a janela. Lado a lado, vislumbrando aquele espetáculo celeste, contemplavam o horizonte. Era uma experiência primordial, hipnótica.


Quando o sol finalmente surgiu entre as manchas rosadas, a bruxa foi capaz de despertar parcialmente daquele transe, e desviou o olhar para a moça. A haste floral de sua hóspede havia aberto por completo, exibindo um lindíssimo lírio branco. Seu aroma doce, só agora percebido pela bruxa, pareceu limpar-lhe o peito, dando-lhe coragem para olhar acima dos próprios ombros. A bruxa ficou embasbacada ao avistar, acima de seus espinhos, uma espetacular rosa vermelha, de uma cor tão intensa que beirava o magenta.


Estendeu a mão em direção a ela, como se hesitasse em tocar o fruto de seus próprios esforços — como se corresse em sua pele um veneno capaz de contaminar tudo o que fazia. O perfume intenso do lírio parecia transformar todas as suas angústias em cuidado, e, quando finalmente tocou uma das pétalas, desabou em um choro que lhe lavava a alma:

— Puta que pariu, como é bom tocá-las sob a luz do sol!


Sem perceber, agarrou a mão da moça a seu lado, apertando-a tão forte que a jovem se voltou imediatamente para ela. Ao ver que as lágrimas escorriam, lavando todo o rosto da bruxa, ela teve certeza do que deveria fazer. Testemunhava ali uma mulher sendo liberta de si mesma, de seus demônios e pavores do próprio fracasso, do medo de botar tudo a perder apenas por ser ela mesma. Obviamente era impossível que a jovem soubesse de tudo isso.

No entanto, sabia que ali só uma coisa lhe cabia: parar e respirar, enquanto contemplava a maravilha do desejo de estar viva.

 

Hélio já ultrapassava a linha do horizonte com suas carruagens, quando a bruxa finalmente se mexeu, dando dois tapinhas de leve na mão da moça, como se estivesse agradecendo pela companhia nos momentos finais de sua derrocada. Secando as lágrimas, pediu à visitante:


— Vou preparar nosso café da manhã, não jantamos, já não é sem hora. Por favor, traga os talheres que não usamos ontem, vou dar essa sopa para os porcos.


E, apanhando o avental nos pés da cama, saiu fungando, com a tigela de sopa intocada da noite anterior.


A essa altura a moça já tinha entendido que era incapaz de acompanhar as movimentações da bruxa e até mesmo as surpresas que aquela casa retinha. Até agora não tinha avistado nenhum chiqueiro ou sinal de animais domésticos, mas a bruxa e sua casa pareciam ter personalidades infinitas. Espreguiçou-se, dobrou com cuidado os cobertores e depois se encaminhou à cozinha, com os talheres em sua mão.


O cômodo estava vazio, mas conseguiu ouvir a bruxa além da janela, provavelmente no jardim. Com passos já mais firmes naquele território, colocou os talheres intocados da noite anterior sobre a mesa e encaminhou-se até a soleira para observar.


Outra vez, a moça teve o privilégio de testemunhar mais uma face de sua anfitriã. A mulher territorialista e quase marcial da noite anterior estava agora despreocupada, sem observar tudo ao redor com obsessão. Ao contrário, conversava com pássaros alimentados por farelos e frutas murchas, enquanto colhia flores e ervas em uma cesta que já continha algumas frutas, provavelmente vindas de um pomar além dos limites experimentados pela moça. Ao fundo do jardim, um portão entreaberto sugeria ainda mais território — um que aquele lírio recém aberto talvez nunca chegaria a atravessar.


Quando ela levantou a cabeça e, por acaso, seu olhar encontrou o da moça na janela, a jovem pôde compreender instintivamente o que ocorrera. A bruxa era exatamente a mesma mulher, nada mudara em sua aparência; a diferença é que agora ela se preocupava mais em estar viva do que com a possibilidade de algo, ou alguém — no caso, a visitante — arruinar tudo que construíra até então.


O que a moça avistava no jardim era uma expressão muito parecida com a de uma sobrevivente, que, ainda que não sorrisse escancaradamente, estava grata em poder seguir sua vida ordinariamente, sem grandes rompantes ou tragédias. A graça de alguém que enfrentou a si mesma e tombou a espada, que deu o braço a torcer para si própria, comovida pelo brilho da própria existência. Definitivamente não existe nada mais persefoneiko do que isso.


A bruxa se despediu dos pássaros, e pelas palavras trocadas ficava claro que aqueles diálogos com visitantes não eram algo inédito — parecia, na verdade, uma espécie de parceria entre jardineira e polinizadores. Tirando alguns galhos do cabelo, adentrou a cozinha:


— Beija-flores ficam completamente ouriçados a essa época do ano, são informantes ainda mais propícios

o tom que empregou parecia o sussurro de uma dica mágica, quebrado pelo humor obsceno em seguida:

— Menina, que fome da miséria, puta que pariu. Você gosta de ovos mexidos? Ótimo, Grizelda tem colocado ovos imensos, vão acabar estragando. Vou preparar alguns para o café e fazer algo para você comer no caminho também.


A moça fez um gesto de recusa, mas não encontrou muita receptividade na visão prática da bruxa:


— Imagine, não precisa me agradecer, você vai levar sim. Sou só eu aqui, não tenho dado conta de consumir tudo, vão acabar estragando; ela ainda não pode ter pintinhos, meu amigo só conseguirá me trazer o galo que encomendei daqui a semanas.


E, sem deixar muita opção à moça, a bruxa se levantou. Cozinhou uma quantidade muito maior do que o suficiente apenas para as duas, e insistiu muito para que a moça levasse o restante. Quando essa finalmente aceitou, a bruxa se via no auge da sua glória como anfitriã, e preparou um cesto para a jovem.


A menina decidiu então partir antes que o sol atingisse seu pico e o calor ficasse exaustivo. Como um gesto de cortesia, a bruxa a acompanhou até a porta, carregando a cesta. Já na estrada, naquela encruzilhada onde se falaram pela primeira vez, as duas mulheres se olharam. Sentiram o perfume uma da outra, admiraram suas pétalas.


Isso tudo durou o tempo de um piscar de olhos, e, quando a bruxa abriu o seus, viu as raízes da jovem se estendendo em sua direção para envolvê-la. Dessa vez, ela estava muito próxima para fugir, e talvez secretamente — secreto até mesmo para ela — desejasse ser envolvida pelos radículos de sua visitante. A bruxa retribuiu o gesto, mas, embaraçada com o contato humano tão próximo, o encontro teve duração muito mais curta do que se espera de um abraço.


— Mulher, eu já te acompanhei até a porta porque é cortesia acompanhar até a estrada um visitante bem-vindo, mas torrar no sol por sua causa já é demais, viu? Uma boa jornada, e até a próxima.


A moça deu um sorriso, assim como a bruxa. Se despediram, e ela seguiu  sua jornada, mas, ao olhar para trás, percebeu que a bruxa a encarava até desaparecer no horizonte. Deu um último aceno e teve a alegria de ser retribuída; continuou mais confiante.


Por volta do meio-dia, no entanto, a moça ainda se encontrava na metade do caminho quando resolveu parar e se hidratar. Alcançou a cesta de provisões e percebeu que o exagero da bruxa não se resumia aos cobertores. Encontrou água, frutas, bastante comida e também seu caderno com as receitas. Ao conferir os vidros das pharmakas, encontrou 4, e não 3 como usaram no dia anterior. O quarto vidro, de conteúdo desconhecido, tinha um bilhete colado:


"Essa é uma fumigação, para regenerar as feridas e recepcionar novos projetos com alegria. Use-a e descubra por si própria os ingredientes e a qual deus ela foi consagrada. Quero que me conte da próxima vez que passar por aqui.

Ps 1: não seja desatenta e preste atenção nos tamanhos variados de cada planta que há aqui, essa parte é importante.

Ps 2: no verso eu anotei o endereço da livraria na próxima vila, para que você compre o seu exemplar de O Caminho de Perséfone e não seja mais tão enxerida."


A última observação inevitavelmente soou meio seca, mas, ao virar a página, a moça encontrou não só o endereço, mas algo traçado com a caligrafia da bruxa, ainda mais tremida que o habitual:


"Que Perséfone abençoe constantemente sua jornada, e que você tenha a capacidade de produzir seu próprio fruto e alcançar o submundo com suas raízes."

 


Comentários


bottom of page