Parte 1: O despontar além da caverna
Atualizado: há 9 horas
Phármakas ditadas para se purificar e celebrar o florescer
Há muito pouco tempo atrás, uma bruxa apreciava uma xícara de chá sentada no último degrau da escada que conduzia à entrada de sua casa. Aquele era o último pôr do sol antes da chegada da primavera e estava particularmente deslumbrante. O inverno havia trazido com ele muitas perdas, simbólicas e literais. Perdera pessoas queridas, encerrara projetos e abrira mão de sonhos para que ela mesma não sucumbisse à exaustão. Mas agora ela estava ali, em uma casa que era só sua, e que mesmo que não estivesse completamente acabada, ela já a amava, com todo seu coração.
Quanto mais o sol afundava no horizonte, mais ela adentrava em si, analisando o estado de suas feridas recentes. Percebera que boa parte estava cicatrizada, mas que ainda demandaria bastante cuidado para que não se abrisse de novo. Mal acabara de formular esse pensamento quando uma libélula pousou na borda da sua xícara de chá.
A bruxa deu uma risada um tanto abafada, como se o esforço de fazer coagular as dores de sua alma permanecesse abraçado à sua capacidade de regeneração. "Que bom" — pensou ao ouvir o som da própria risada — "nessa subida eu não me desfiz do que era importante para mim". Mal concluíra esse pensamento quando a libélula bateu asas, levando com ela o olhar da bruxa que foi de encontro ao horizonte, manchado de um azul etéreo e limiar. Sentiu um desejo profundo de se revirar inteira, só para achar algo que fizesse jus àquele cenário maravilhoso.
Quando a lua finalmente despontou beijando as flores daquele jardim que era quase uma extensão da floresta ao seu redor, a bruxa sentiu suas próprias pétalas se remexerem. Resolveu então entrar e se preparar para o seu florescimento.
Durante o inverno ela ocupou-se em um duro trabalho devocional junto a seus deuses para elaborar Pharmakas que a nutrissem e ajudassem a preservar aquilo que era necessário para um florescimento sadio. O senhor dos mortos em especial foi-lhe extremamente gentil durante o inverno, ajudando a escavar com esforço seu próprio diamante de sabedoria. Foi no submundo que a bruxa aprendera o segredo de vitalidade que ela colocava em prática e recitava em voz alta naquele exato momento: — Se eu parar, eu respiro.
A bruxa finalmente se levantou, enquanto sacudia o avental para afastar as migalhas de biscoito que acompanharam o seu chá, e, quando ia virando as costas, percebeu um botão floral saindo da caverna. Seu caminhar desajeitado indicava que aquela tinha sido a sua primeira descida, fazendo o peito da bruxa involuntariamente se aquecer de nostalgia.
Lembrou-se de seu primeiro encontro com a senhora e o senhor do submundo. Havia sido um rapto muito doloroso: abdicara de muitas partes de si, de muitas pessoas e lugares que faziam mais mal do que ela era capaz de perceber, tomada pela dor como estava. Mas valera a pena. Ela nunca mais tinha sido a mesma, mas foi dessas renúncias que surgiu o desejo de estar viva pela primeira vez. Com calma, ela esperou que a peregrina se aproximasse da sua porta para dizer-lhe:
— Entre. Posso te oferecer um local para passar a noite e uma refeição quente. Vai ser bom ter companhia para esperar a primavera.
A jovem flor olhou de um lado a outro e não viu mais ninguém naquela estrada que cortava a floresta. Estava assustada, e embora ansiosa pelo raiar do dia, temia arriscar a abertura de suas pétalas caso passasse a noite sozinha naquela vastidão selvagem. Refletiu por um segundo e concluiu que alguma sabedoria deveria ter aquela mulher. Ela exibia um botão muito bonito, e alguns espinhos também, provavelmente o que a capacitava para viver sozinha naquele local ermo.
Além disso, o jovem rebento começara a fazer as pazes com sua natureza selvagem no tempo que passara abaixo da terra durante as estações anteriores. Quando farejou o cheiro de flores e ervas, feitiços e fórmulas, fumaça e pergaminhos, seus pés pareceram tomar o comando, e quando deu por si estava na cozinha da bruxa.
O cômodo era tão fantástico como se podia imaginar. A anfitriã estava tentando acender o fogão a lenha e disse à recém-chegada, sem levantar a cabeça:
— Separei bolo e chá para você. Coma, você deve estar com fome. Tinha biscoitos também, mas você chegou tarde; comi o último há pouco.
A moça olhou para a mesa e encontrou de fato duas xícaras, um bule e um apetitoso bolo, de uma cor rubra intensa, semelhante à da beterraba. Estava faminta, e não percebera dois objetos que estavam destoantes naquele conjunto: um caderno e uma caneta.
— Foi a sua primeira descida? — indagou a bruxa, sentando-se de frente para a caminhante e servindo-se de uma xícara de chá.
A jovem, com a boca cheia de bolo, limitou-se a balançar a cabeça, concordando.
— Dói pra cacete, né?
A haste floral da visitante tremulou, lembrando de quantas renúncias fizera para emergir tão viçosa.
— Durante a primavera — continuou a bruxa, alcançando uma cesta com ervas e flores —, eu desenvolvi junto aos deuses algumas Pharmakas para garantir a cicatrização das feridas e a purificação necessárias para a celebração de nosso florescimento. Posso ensiná-las a você, caso queira.
A jornada no submundo, durante o outono e o inverno, também tinha sido difícil para a jovem. Havia algo agridoce na voz da bruxa enquanto falava. Sem saber por quê, esse algo fez a moça se lembrar de todas as renúncias que vivera. Levou a mão ao botão fechado, acariciando-o de leve enquanto ouvia sua anfitriã. Reflexiva, a moça baixou os olhos para as próprias mãos, que ainda envolviam a xícara de chá quente. Lembrou-se das palavras que ouvira da sacerdotisa da rainha do submundo antes de subir:
"Para que as feridas sejam coaguladas, é preciso revisitar eventos passados sob uma nova luz. Aqueles que empreendem sua jornada com verdade e entrega emergem às vésperas da primavera com um botão floral poderoso, que carrega em si a chance de sustentar uma personalidade autêntica."
Após refletir sobre tudo que estava em risco, a moça levantou-se e, com prontidão, encaminhou-se para colocar-se ao lado da bruxa. O fogo havia apagado, fazendo a dona da casa entrar em mais uma peleja para acender o fogão a lenha. Ao se aproximar, a moça foi tomada pelo cheiro forte da fumaça úmida que a lenha, beijada pelo sereno da noite, exalava. Quando finalmente a madeira ardeu em brasa, a bruxa ergueu a cabeça. Seus olhos estavam marejados e vermelhos após a calorosa batalha para obter o fogo. Encarando a jovem, defendeu com casualidade o território de seu fogão:
— Não precisa se afobar. Pode sentar-se e terminar de comer com calma. Vou à despensa apanhar os óleos que vamos precisar.
Segura de que a jovem tinha entendido o recado, a anfitriã deu-lhe as costas e encaminhou-se a um cômodo ao lado.
Quando a bruxa retornou, encontrou sua hóspede cabisbaixa, claramente envergonhada por ter agido de maneira invasiva, desrespeitando os limites que a dona da casa impunha em sua residência.
Imaginando que esse seria o cenário mais provável ao adentrar a cozinha, a bruxa atentou-se ao prato da jovem, onde repousava o pedaço de bolo ainda pela metade. Comoveu-se com o constrangimento da moça e tentou adocicar um pouco o tom de sua voz:
— Coma. Você precisa ter gordura o suficiente para amenizar o impacto caso tenha uma queda. Não precisa se preocupar, eu prepararei nossa alquimia enquanto você se ocupa em tomar nota — assim você pode prestar mais atenção e me indagar caso tenha alguma dúvida.
Apesar de duras, as palavras daquela mulher soaram gentis à jovem flor, inspirando-a a superar o constrangimento e terminar de comer aquele delicioso bolo. A bruxa observava a menina com o canto do olho, enquanto se ocupava em separar alguns vasilhames à beira do fogão. Quando percebeu que a jovem tinha comido até parecer satisfeita, dirigiu-se a ela, apontando com sua colher de pau em direção ao caderno e à caneta:
— Esse vai ser seu diário de alquimista. Vamos fazer um óleo perfumado para Perséfone, para nos purificar e também celebrar nossa floração. A gente merece festejar a primavera também, caralho!
A bruxa deu uma gargalhada profunda, que ao alcançar os ouvidos da moça fez com que ela tivesse certeza de que aquele riso vinha das entranhas daquela mulher tão autêntica e volátil. A jovem apanhou com prontidão o caderno à sua frente e, ao abri-lo, percebeu que muito provavelmente ele havia sido encadernado à mão. Munida do seu novo artefato e de caneta em punho, encarou a bruxa, pronta para anotar cada palavra que ditasse. Ao perceber determinação nos olhos daquela flor recém-desperta, a bruxa começou a ditar-lhe as primeiras explicações:
Aspirando o perfume das flores, com os olhos semicerrados, a bruxa começou a compor a fórmula com gestos lentos e pacientes, para que a jovem pudesse absorver a prática além de suas palavras. Verteu o azeite no recipiente, consagrando-o à Deusa; em seguida, uma a uma, foi acrescentando as rosas brancas, o manjericão e o hibisco, chamando por cada aliada vegetal com sua devida evocação, como se apresentasse velhas amigas umas às outras.
A bruxa depositou sua colher de pau sobre um aparador em cima do fogão e voltou-se para a moça:
— Agora nossa pharmaka deve permanecer no fogo por 30 minutos. É preciso estar atenta e não deixar a água do banho-maria secar, repondo-a caso isso aconteça.
Depois de proferir esse ensinamento, sentou-se junto à jovem para transmitir-lhe as últimas instruções daquele preparo:
— O fogo também deve permanecer sempre baixo, e a panela, sempre destampada — continuou soltando um gemido de alívio ao sentir o amparo da cadeira. — É totalmente possível fazer um extrato oleoso instantâneo, mas deve-se tomar cuidado com o tempo de exposição ao calor e à temperatura. Ervas frescas são mais sensíveis e contêm muita água. Água e óleo não se misturam, mas o banho-maria garante que a água evapore, impedindo que bactérias se proliferem e o oleato se torne rançoso.
A jovem seguiu anotando até a última palavra da bruxa. Quando esta percebeu que a visitante repousara a caneta, propôs-lhe um escalda-pés para reporem as energias. A moça concordou de prontidão — suas raízes estavam de fato cansadas, e seria bom repousá-las em águas enfeitiçadas e terapêuticas.
— Então me faça um favor, por gentileza —a bruxa disse, finalmente delegando algo prático à jovem. — Apanhe um pouco de água no poço; usei o resto que havia aqui dentro para o banho-maria. É só descer por aquele degrau que encontrará o jardim. O poço fica no centro; ao lado dele, verá um balde que deixei lá mais cedo. Vou vigiar nossa alquimia enquanto isso.
A moça desceu por um degrau nos fundos da cozinha e já se deparou com o jardim. Aquele ambiente era a coisa mais maravilhosa desde o seu encontro com a bruxa no cair da noite. Havia algo de onírico naquele espaço, onde plantas cultivadas dividiam espaço com fungos e raízes grossas de árvores vindas da floresta. O farfalhar das folhas das árvores e o canto noturno dos grilos deram-lhe a sensação de uma solitude esplêndida. Caminhou até o poço, mas não resistiu a sentar-se em sua borda, soltando uma exalação de alívio.
A luz de Selene derramava-se amorosamente por todo aquele lugar, fazendo com que as pétalas da haste floral da jovem começassem a se abrir, ainda que sutilmente. Sem saber se já tinha passado dez minutos ou meia hora ali, ela levantou-se e colocou-se a bombear o poço. Até mesmo o som da água subindo até ela a renovava, enchendo o seu peito de ânsia pela vida. Após completar o recipiente, encaminhou-se para a casa, profundamente marcada pela visão daquele magnífico cenário.
Ao adentrar a cozinha, encontrou a bruxa com os pés sobre um banquinho e suas chinelas logo abaixo dela.
— Você voltou rápido! — exclamou a bruxa, para a surpresa da moça.
Sem demonstrar constrangimento por ter sido apanhada descansando tão à vontade, a dona da casa levantou-se para pegar o balde de água fria das mãos da jovem.
— Muito obrigada — disse a bruxa. Seu tom de voz mudou, e seu semblante ficou mais reflexivo, como se estivesse ponderando sobre regências astrológicas, ou o que quer que ocupasse o raciocínio de uma pharmakistra. — Agora pode sentar-se ali; vou lhe dar as últimas instruções que você precisa para reproduzir a receita do óleo — disse a bruxa, e passou a descrever, em poucas frases certeiras, os passos finais: como esperar a alquimia amornar, como coar por completo os vegetais, e só então, com o óleo já frio, chamar pela lavanda antes de guardá-lo no frasco. A moça anotou atentamente cada palavra da bruxa e permaneceu atenta para o caso de mais alguma instrução.
— Bem — a voz da bruxa transmitia firmeza— Estou cansada, e você também. Não há necessidade de desperdiçarmos energia agora que você já entendeu com clareza a base da preparação.
A moça corou com o elogio, ainda que ele tivesse vindo no mesmo tom de uma constatação a respeito do estado de um ingrediente em uma pharmaka. A empolgação das novatas sempre instigava positivamente a bruxa, que, dando um risinho, tentou aliviar a carga da caminhante:
— Eu já coei a mistura enquanto você estava no jardim. Pode apenas anotar o encantamento e ir descansar na sala. Vou preparar a água para nosso escalda-pés enquanto espero a alquimia esfriar de vez, para poder integrar a lavanda.
A jovem flor até pensou em protestar, mas sua anfitriã já estava recitando as palavras finais — o pedido de purificação que seu óleo carregaria dali em diante — enquanto trazia o frasco fechado junto ao peito. Só lhe restou apanhar a caneta afoita, tentando registrar cada gesto antes que a bruxa terminasse.
A bruxa abriu os olhos, despertando daquela espécie de transe, e dirigiu-se à moça:
— Pronto, isso é tudo que você precisa saber para conseguir reproduzir essa pharmaka. Agora vá descansar; eu posso lhe garantir que vai precisar. A vida na superfície demanda muito esforço, e ainda há bastante tempo daqui até o fim do verão.
O choque de realidade fez com que a moça se levantasse e, sem perceber, acabou deixando seu caderno em cima da mesa. Ao perceber esse descuido, a bruxa levantou brevemente uma sobrancelha. No entanto, não advertiu a moça, limitando-se a dizer que a sala ficava na primeira porta à direita e que ela podia ficar à vontade e acender a lareira caso estivesse com frio.
A jovem adentrou mais a casa, conforme orientações da sua anfitriã. Percorreu um corredor de tamanho considerável em relação ao da estrutura da casa como um todo. Nele encontrou diversos quadros nas paredes, com molduras em um dourado envelhecido, ornamentadas com relevos florais.
Havia ali quadros muito antigos, com fotos de casais. Outros ainda traziam imagens de plantas e ilustrações botânicas; outros, ainda, de mulheres jovens e sorridentes à beira de uma represa, vestindo o quíton, roupa tradicional helênica. A bruxa estava entre elas e, diferentemente de como se portara com uma desconhecida, parecia radiante, muito sorridente e abraçada às suas irmãs de indumentária. A maioria delas vestia um traje branco simples, com exceção de uma mulher esplendorosa, que tinha uma túnica roxa com detalhes de estrelas.
Ao avistar a indumentária celeste, a moça imediatamente compreendeu como a bruxa sabia tanto sobre o submundo. Mesmo curiosa, um instinto a alertou: aquele era um território sagrado. Seguiu seu caminho sabendo que o preço em violar a intimidade de uma devota de Perséfone era algo que ela não podia pagar. Temendo ser descoberta reparando nas coisas da dona da casa, a jovem continuou a caminhar, abdicando aborrecida de sua curiosidade. No entanto, no meio do corredor encontrava-se algo ainda mais maravilhoso.
Um aparador de três níveis exibia estátuas negras de deuses e vasos perfumados, e um deles com terra em seu interior. No centro da prateleira mais baixa, havia um jarro de água cercado de sigilos entalhados, além da estátua de uma serpente enrolada em um pórtico.
Uma última coisa prendeu a atenção da visitante antes de se encaminhar derradeiramente até seu cômodo de destino: na prateleira do meio, junto a ferraduras e ossos que aparentavam ser de galinha, havia duas molduras ovais, cada uma contendo a fotografia de um gatinho. Um cinzento, com cara de arisco; o outro, alaranjado, cujo semblante denunciava o quão preguiçoso ele devia ter sido.
Imediatamente, a jovem flor compreendeu que aquele era um memorial dos mortos, e sentiu compaixão pela bruxa ao se dar conta da perda que ela enfrentava. Gostaria de ficar ali mais tempo, mas temia ser advertida pela dona da casa, que já havia demonstrado o quanto prezava por seu espaço pessoal. Mesmo a contragosto, dirigiu-se à primeira porta à direita, que já avistava.
A sala guardava sua própria peculiaridade e era ligeiramente menor do que a cozinha. Em suas paredes laterais havia estantes abarrotadas de livros e manuscritos, a maioria bastante gasta. O aroma que vinha deles exalava um cheiro de ervas secas, mas, surpreendentemente, não indicava a presença de poeira. Ao fundo havia uma janela e, ao seu lado, uma lareira. A distância curta entre elas sugeria que, quando uma se manifestava, a outra se retraía. Nesse momento, era a janela quem dominava o espaço, iluminando o pequeno e confortável sofá com a luz prateada da lua.
Ali, a sabedoria primaveril da jovem foi colocada à prova, no entanto. Ao passar pela estante, viu o título de um livro: "O Caminho de Perséfone". Ela até tentou resistir, mas a lembrança da sabedoria púrpura e celeste estava fresca demais em sua mente. Avançou avidamente sobre a estante e colocou-se a folheá-lo. Suas pétalas se agitavam como nunca até então, e as anotações da bruxa em cada uma delas — dando sua perspectiva dos ensinamentos, ou registrando falhas e sucessos nos feitiços — só aumentavam a excitação. Quem visse de longe diria que aquele botão estava prestes a abrir. Quase em transe, a jovem folheava o livro avidamente, quando um aroma terroso a despertou. Virou-se em sua direção, e o que viu fez seu sangue gelar.

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