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Parte 2: Conversas difíceis

Foto do escritor: Alvorada Obscura
Alvorada Obscura
há 8 horas
15 min de leitura

A bruxa não costumava agir com aspereza, mas, sem saber, a moça pisara em feridas muito recentes. Havia ressentimentos e desconfianças ainda não cicatrizados no interior daquela mulher que habitava uma casa tão isolada na floresta.

 

Mais uma vez, sua antiga amiga a salvava de si mesma. Ao avistar o nome dela na capa, foi tomada pela saudade — não a via desde sua iniciação. Pouco a pouco, as boas memórias foram apaziguando o furor da bruxa, que acabou dizendo, quase em sussurro, à novata:


Agora, tão próxima, a bruxa percebeu o estágio da floração da moça. Em choque, sem saber como reagir, desviou os olhos, que por acaso pousaram no livro, reparando, finalmente, em seu título.


— O caminho tem mesmo um magnetismo impressionante sobre a gente, né? Mas você pode adquirir seu próprio exemplar; não é sábio fuçar em armários fechados quando se é visitante. Não abuse da hospitalidade alheia.

 

Ao perceber que a bruxa se acalmara, a jovem voltou a respirar, e seu coração, que quase saía pela boca de tanto medo, foi retomando, pouco a pouco, seu ritmo normal.

 

A bruxa sabia que deveria conduzir o diálogo adiante.

 

— Posso te indicar uma livraria na cidade, para você comprar seu próprio exemplar — disse.

 

A moça finalmente recuperou o rubor das faces, ao saber que poderia ter seu próprio livro.

 

— Mas agora — continuou a bruxa — trate de arrumar essa bagunça e colocar tudo no lugar de onde tirou. Vou preparar nossos escalda-pés enquanto isso.

 

A mulher encaminhou-se para o pequeno sofá abaixo da janela, dispondo duas bacias no chão, e sentou-se rapidamente para poder acompanhar cada movimento da peregrina ao lidar com seu tesouro. Quando a moça terminou de arrumar tudo, continuou sentada no chão, visivelmente sem graça.

 

Parcialmente arrependida pela intensidade de sua reação, a bruxa sentiu pena ao ver que as pontas das pétalas do botão fechado da moça haviam murchado levemente.

 

"Calouras" — pensou, sacudindo a cabeça. — "Metem-se em cada problema. Ainda que não seja problema meu, vou tentar ter um pouco mais de paciência com essa moça."

 

Em um instante, a bruxa foi invadida pelos próprios tropeços ao longo de sua jornada, o que quase lhe embargou a voz. Para evitar ser tomada por elas, chamou pela jovem:

 

— Venha, mocinha, a água está esfriando. Mergulhar os pés na água quente fará bem a nós duas.

 

Constrangida, a moça levantou-se e caminhou até o sofá. Como ele era pequeno, ela e a bruxa precisariam se sentar lado a lado. Ao perceber o embaraço da jovem, a dona da casa levantou-se, apontando uma das almofadas, e ocupou-se de despejar a água quente nas duas bacias.

 

A menina percebeu que alguns grãos, semelhantes a pequenos cristais verdes, também eram despejados e, ao entrarem em contato com a água, exalavam um cheiro terroso muito revigorante. Ouviu a bruxa recitar algumas palavras baixinho e, logo em seguida, foi envolvida pelo vapor perfumado da bacia que sua anfitriã dispunha à sua frente. A bruxa repetiu o processo, dispondo uma segunda bacia para si mesma. Somente quando a anfitriã afundou os pés na água quente, a visitante sentiu-se segura para fazer o mesmo.

 

— Puta merda, como eu precisava disso — exclamou a bruxa, enquanto esfregava os pés em contato com os sais.

 

A moça a imitava, e nem era preciso que a bruxa a encarasse para saber que a jovem estava ansiosa e curiosa pela receita daquela pharmaka.

 

— Não precisa ficar me encarando como um cachorro pidão. Eu já anotei as instruções para reproduzir as duas pharmakas dessa noite. É véspera do equinócio, precisamos poupar energia.

 

Dito isso, enfiou a mão no fundo do bolso do avental, retirando duas páginas avulsas e entregando-as à jovem, que as recebeu ansiosa.

 

— Pronto. Agora vê se relaxa um pouco, você não se aquieta, menina! — disse a bruxa, cerrando os olhos e lembrando-se de que não fazia muito tempo desde que ouvira aquela exata frase de seu mais querido mentor.

 

A moça não conseguiu conter a expectativa e, enquanto sua anfitriã repousava os olhos, colocou-se a ler os manuscritos que havia recebido. A caligrafia da bruxa não era das melhores — parecia refletir alguém que se preocupava mais com o conteúdo que estava transmitindo do que com torná-lo belo aos olhos de quem está aprendendo. Ainda que um pouco esgarçados, os manuscritos permitiam à moça ler com clareza as instruções da bruxa: uma noite de lua nova, o gengibre e sua promessa de força vital, o sal da terra e sua riqueza mineral, a beterraba e sua nutrição obscura — cada ingrediente evocado por seu próprio nome, como se fossem convidados a um ritual só deles. No fim, a mica salpicada sobre tudo, e o nome de Hades chamado por último, como quem reserva o convidado de honra para o final da festa.

 

Fazia alguns instantes que a bruxa abrira os olhos e acompanhava de soslaio a leitura da moça — os olhos da jovem corriam depressa demais pelas linhas, ansiosos por chegar ao fim antes mesmo de terem chegado ao meio. A bruxa reconheceu aquele ritmo. Não disse nada sobre isso.

 

— As cores também são imbuídas de magia, sabia?

 

Apesar da interlocução tão de repente, a jovem não se assustou — àquela altura, já havia se acostumado com a voz da anfitriã.

 

— Você pode variar as cores da mica nessa receita — continuou a bruxa, em um tom de voz mais relaxado — para buscar especificamente pela energia que você precisa. Fiz essa verde para o vigor, mas você pode fazer vermelha para energia sexual, ou preta, para quando quiser catalisar aqueles pensamentos bem merdas em força vital.

 

Ao concluir seu raciocínio, a bruxa afundou ainda mais no sofá. Abriu os olhos por completo, mas voltou o rosto para o lado oposto ao da jovem, colocando-se a encarar a lua pela janela. Ainda que a moça não percebesse, ela girava um anel de ródio negro, encrustado com uma pedra sanguínea, no dedo anelar da mão esquerda. Antes que a moça pudesse voltar a se concentrar no manuscrito, a bruxa voltou a lhe dirigir a palavra:

 

— Me causa muita revolta ver como o nome de Hades é tratado hoje. Às vezes eu penso em amaldiçoar uma dúzia desses que latem o seu nome, mas aí sempre me vem um ensinamento dele à mente: todos nós, um dia, vamos bater à sua porta.

 

E, voltando o rosto para a visitante, a bruxa prosseguiu em tom melancólico:

 

— É, minha cara, todos nós vamos morrer. Não é melhor, então, que comecemos a reverenciar o senhor dos mortos ainda em vida?

 

A moça pestanejou, surpresa com a mudança do tom da conversa. Enquanto esfregava os pés nos cristais de sal na água, a bruxa continuava seu monólogo, com uma voz cada vez mais grave:

 

— O que mais me revolta, no entanto, é que Hades é um deus profundamente gentil e generoso, e que se sente grato em ser recebido em nossos lares. Consegue imaginar um deus grato a um mortal por lhe receber em sua casa? Pois Hades é assim.

 

A bruxa puxou então uma manta do encosto do sofá, estendendo-a sobre si e a moça, que não ofereceu resistência à gentileza. Enquanto se cobria até o pescoço, o abraço do cobertor despertou nela a memória de momentos recentes em que se sentira aconchegada. Mais uma vez, colocou-se a olhar novamente para a lua e continuou com seus devaneios.

— Sabe, esse nosso mundo não é fácil de viver, disso você já sabe. Sofremos tanto por perdas naturais da vida, por pessoas desgraçadas que se aproveitam de nossas fragilidades para roubar o que nos é mais precioso, entre tantas coisas.

 

— Tudo isso — continuou a bruxa, enquanto apertava cada vez mais o anel — nos gera feridas e traumas profundos, e nunca encontrei outra divindade tão paciente com a nossa regeneração quanto Hades. Perséfone nos impulsiona para a vida, mas é ele quem mas nos ensina sobre a vitalidade que um respiro concede em meio ao caos. Eu forjei essa pharmaka que estamos usufruindo agora para isso. Às vezes estamos tão machucadas que começamos a fazer qualquer coisa freneticamente, sem rumo ou direcionamento, ansiosas para devorar todo conhecimento quanto seja possível. Tudo isso porque parar significa refletir. Buscar energia também é admitir exaustão, e é nessa hora que encaramos muitas coisas que fingimos não ver.

 

A bruxa fez uma pausa e balançou de leve a cabeça, como se fosse uma tentativa de voltar ao presente, preparando-se para concluir seu raciocínio:

 

— Todas essas coisas que varremos para debaixo do tapete, todas essas sombras vão ardilosamente sugando nossa vitalidade.

 

Finalmente, voltou a encarar a moça e, fitando-a nos olhos, prosseguiu:

 

— Você leu o que escrevi: Hades é o senhor das riquezas abaixo da terra, do oculto. Ele é capaz de nos ajudar a integrar qualquer coisa que esteja no caminho de nossa versão mais autêntica, e a retomar nossos preciosos recursos para adubar nossa própria floração.

 

A bruxa abraçava a si mesma sob o anonimato do cobertor, mas falava o mais próximo do seu habitual quanto possível:

 

— Quando salpicar a mica, diga-lhe seus desejos com honestidade e sem julgamentos. Ele tem uma certa inclinação a atender pedidos assim. Ah, a generosidade dele também permite fabricar essas joias de cores variadas e armazenar para diversos intentos.

 

Uma grande nuvem de chuva encobriu a lua, deixando aquele cômodo praticamente no breu completo. Aproveitando a brecha, a bruxa, já cansada, pediu por privacidade:

 

— Agora eu já lhe disse tudo que precisa saber. Vamos, por favor, aproveitar esse breve momento de escuridão enquanto aquela nuvem encobre a lua.

 

A moça estava arrepiada dos pés à cabeça. Suas pétalas, ainda fechadas em sua maioria, tremulavam ao ouvir coisas como "fertilidade oculta" ou "nutrição obscura". Ainda que fosse inexperiente, sabia que a bruxa havia compartilhado com ela segredos muito preciosos. A moça colocou seus pensamentos de lado e decidiu concentrar-se naquilo que precisava buscar no submundo, enquanto esfregava suas raízes na água ainda morna da bacia.

 

Passaram mais alguns minutos em total silêncio, imersas cada uma em sua própria escuridão, tal qual a lua encoberta. Ao ver que a noite avançava, a bruxa levantou-se e apanhou uma das toalhas que tinha deixado ao lado do bule. Após secar os pés, indagou a moça se ela não desejava tomar um banho enquanto preparava uma última refeição para as duas. A pobre flor, exausta como estava por tantas emoções e novidades, estava cochilando sem que a bruxa notasse. Acordou pestanejando as pálpebras, tentando se localizar.

 

Agora que a moça levantara a cabeça, a bruxa pôde reparar que o botão da jovem havia cedido consideravelmente após o contato com sua pharmaka, enchendo-a de orgulho e também ternura, pois a jovem aparentava que ia ter uma floração muito sadia.

 

— Desculpe-me por te acordar assim de repente, não percebi que estava dormindo — exclamou, enquanto estendia uma toalha seca para a moça.

 

— Você não gostaria de tomar um banho enquanto preparo algo para comermos? — repetiu a bruxa mais lentamente, certa de que a moça não havia ouvido uma única palavra do que tinha dito.

 

Ao ouvir "banho quente" e "comer", a moça terminou de despertar de vez e se levantou após secar os pés, pegando por conta própria as bacias com água, esperando que a bruxa apontasse onde era o banheiro.

 

A dona da casa apanhou as toalhas e encaminhou-se em direção ao banheiro. Só então se deu conta de que estava cuidando de uma desconhecida àquela hora da noite — e sorriu, percebendo que guiá-la até as reservas ocultas de Hades também a havia afetado. Sentiu saudades do reino dos mortos e da hospitalidade de seu anfitrião. Que se fodesse a rabugice: o mínimo que devia, em honra a tudo que recebera no inverno, era ser mais receptiva com aquela devota em formação.

 

Cansada e nostálgica, a bruxa decidiu moderar a reprimenda que viria a seguir.

 

Ela conduziu a jovem até o banheiro, que, ainda que modesto comparado às maravilhas dos outros cômodos, tinha sua peculiaridade, munido de um espelho de prata e um móvel com uma jarra e a pia para o lavatório. Abaixo deles estava um pequeno gabinete, lotado com uma infinidade de Pharmakas; entre elas, uma chamava especialmente a atenção: uma garrafa com grãos de um dourado intenso, que pareciam místicos como a areia de uma ampulheta.

 

— Você tem um bom faro, garota — exclamou a bruxa, ao perceber onde a moça depositava atenção. — Pode despejar a água aqui, por favor — pediu, sinalizando para um ralo no chão, localizado ao lado de uma grande tina de madeira.

 

A moça verteu todo o líquido da bacia, e ainda se atentou em passar uma água em cada uma delas, para que ficassem limpas. A bruxa assistia aquela nova vitalidade com certo orgulho em ver os resultados de sua alquimia, mas não podia amaciar — o mundo lá fora nunca amaciava.

 

— Vou buscar água quente para você, pode me esperar aqui. Fique à vontade para manusear essa pharmaka— disse, tocando o vidro específico com a ponta do dedo —, já que gostou tanto dela; é aquela consagrada à senhora das tochas que lhe falei. Na verdade, pode ficar com o frasco, é seu. Assim terá para algo para te entreter e prevenimos incidentes.

 

 O tom jocoso que a bruxa proferiu essa última frase despertou um sorriso involuntário na moça — Ótimo, pensou a bruxa — afastei o clima de velório para trazê-lo de volta em seguida. Pigarreou de leve antes de prosseguir com o ensinamento que havia arquitetado no começo da noite:

 

— Desculpe, infelizmente só tenho esse frasco para lhe oferecer, terá que usá-los em seu banho. Mas você poderá reproduzir a receita já que a transcrevi para você. Ah, é mesmo, vi que você as enfiou no bolso quando te entreguei. Porquê que não as coloca dentro do seu diário, para que não se molhem no banho?

 

Por um segundo, a moça ficou lívida, percebendo que não estava com seu presente e nem sequer fazia ideia de onde o havia colocado. Colocando fim ao desespero da jovem mais rapidamente do que havia planejado inicialmente, a bruxa enfiou mais uma vez a mão no fundo do bolso de seu avental e tirou de lá o caderno e a caneta que tinha presenteado a jovem.

 

— Tome — disse a bruxa, estendendo os objetos na direção da moça, visivelmente constrangida mais uma vez. — Ora, se martirizar só desperdiça energia, deixe disso. Você os esqueceu na cozinha antes de ir para a sala; eu os apanhei quando fui, em seguida, com a água quente do escalda-pés.

 

A moça apanhou com rapidez seus preciosos artefatos, mas encontrava-se incapaz de olhar a bruxa nos olhos.

 

Presenciar as trapalhadas da moça faziam a bruxa recordar-se de seu próprio começo, e por compaixão a uma antiga versão de si, decidiu abrandar um pouco o tom de sua voz:

 

— Veja, menina, não se aborreça tanto — dizia a bruxa, numa tentativa de amenizar o impacto de suas próximas palavras. — Dessa vez não houve perigo; eu estava aqui para guardar seus pertences. No entanto, na primavera existem muitas coisas lindas e maravilhosas. Se você não tiver clareza do que é importante para você, vai acabar desperdiçando seus recursos e comprometendo sua floração.

 

A moça sentiu um arrepio na espinha percorrer todo o seu caule diante da ameaça de uma floração abortada. Só ela sabia quantas renúncias e enfrentamentos difíceis aquele botão havia custado.

 

A anfitriã percebeu em nos olhos da jovem flor a análise sombria que empreendia intimamente naquele momento. Gerenciar energia vital era fundamental a qualquer caminhante da trilha das estações, era bom para a novata que tivesse aprendido em tão pouco tempo. Ela mesma demorara muito mais a aprender esse ensinamento básico.

 

A bruxa assustou-se quando percebeu estar prestando atenção a jornada de outra pessoa que não fosse a sua. Encaminhou-se depressa em direção a cozinha para apanhar a água quente, temendo que a moça percebesse alguma mudança em seu semblante.

 

Acabou permanecendo muito mais tempo    junto ao fogo do que era essencial. Contemplativa, relembrava os diversos locais onde derramara sua criatividade e afeto e não havia sido reconhecida. No inverno aprendera, a duras penas, que cuidar dos outros não pode custar seu próprio chão. A presença da jovem tensionava esse limite, fazendo com que a bruxa se sentisse observada. Colocar-se a prova era muito incômodo, mas ela jamais revelaria isso a uma desconhecida, as perdas que enfrentara só fizeram aumentar sua teimosia nata.

 

            Enquanto isso, no banheiro, a jovem girava a pharmaka nas mãos, sem coragem de abrí-la. Parecia indigna daquilo, pois quase nada fizera para merecer tudo que aprendera e vivera naquela noite, mais atrapalhando a dona da casa do que ajudando. Sem que percebesse, acabou soltando essa frase em voz alta entre um suspiro de lamentação.

 

O que ela não percebeu, é que passara tanto tempo refletindo ali no banheiro quanto a bruxa na cozinha. Sua anfitriã encontrava-se a a soleira da porta com a grande chaleira de água quente, ouvindo por completo todo o lamento da visitante.

 

— Ora menina, por acaso você é uma ovelha cristã para cair nesse papinho besta de merecimento?

 

 As pétalas já quase brancas da flor empalideceram ainda mais, percebendo o quanto aquela mulher se movia de maneira assustadoramente silenciosa.

 

   A bruxa colocou a chaleira ao lado da tina e sentou-se em um modesto banquinho, de modo a ficar oculta atrás da banheira. Ali permaneceu sentada por alguns instantes, em silêncio. Seu rosto era tomado pelo vapor, chamando a atenção da moça, que só então percebeu o quão jovem aquela mulher aparentava ser.

 

   Levantando apenas parcialmente o rosto, a bruxa finalmente se dirigiu à jovem, ainda que com a voz um pouco incerta:

 

   — Olha só, é importante que nos esforcemos para obter aquilo que desejamos. — Deu um respiro, tentando absorver as próprias palavras. — Mas igualmente necessário é aceitar aquilo que nos é ofertado.

 

   Finalizou como quem cospe algo preso no peito.

 

   A fala da anfitriã foi recebida como uma brisa de alívio pelas folhas da jovem. Para a bruxa, no entanto, o custo foi mais oneroso: difícil tinha sido colocar em palavras o ensinamento recebido de Hades durante o inverno. Ainda mais difícil do que encarar suas eras colocar em prática os ensinamentos que vêm desse embate. Silenciosamente, proferiu um agradecimento sincero ao senhor dos mortos pela oportunidade que ele colocara em seu caminho com a visita da moça — sabia, ali, o quanto também estava aprendendo naquela noite.

 

   Ainda que breve, a moça notou o silêncio reflexivo da bruxa. A mulher encarou-a novamente nos olhos, apenas para lhe passar as instruções do banho:

 

   Estendendo a mão para o frasco que a moça lhe entregou sem demora, a bruxa abriu-o, aspirando seu perfume. Com os olhos semicerrados e um semblante meio ambíguo, continuou:

 

   — Em momentos de desespero, o medo, a culpa e a ansiedade vão tentar ditar aquilo que você merece ou não. — Ergueu então o frasco na direção da moça e, mais próxima do que nunca, disse: — Não acredite em nada do que disserem. Mande todos eles à merda e invoque Hékate através dessa pharmaka.

 

   A bruxa apertou então um amuleto em forma de chave que trazia em um cordão junto ao pescoço, em um gesto de reverência silenciosa. Continuava, no entanto, a erguer o frasco, segurando-o como se realmente fosse uma tocha.

 

   — Enquanto aspira o perfume, pense bem naquilo que deseja realizar neste ciclo da primavera. Hékate Dadóforos, a portadora da tocha, se compadece daqueles que trilham o caminho de Perséfone. Foi assim desde o princípio, quando guiou Deméter desesperada até a resposta certeira do paradeiro de sua filha.

 

   A bruxa contemplava o brilho do frasco, enquanto rememorava todo o sofrimento e caos em meio ao qual aquela alquimia tinha sido forjada.

   "Bem, esses ficaram para trás, pelo menos por enquanto."

 

   — Inalou uma última vez aquela tocha em forma de pharmaka e o devolveu a moça, enquanto saia:  — Veja bem, aproveite seu banho quente enquanto vou arrumar nossas camas.

 

 Mal proferiu a frase e saiu, fechando a porta às suas costas para dar alguma privacidade à jovem. Estranhamente, dessa vez não sentiu os dentes rangendo de desconfiança ao deixar uma desconhecida a sós em um espaço de sua intimidade.

 

Sozinha, a jovem nem sabia o que pensar àquela altura, dado o grande volume de informações e acontecimentos que vivenciara em um período tão curto de tempo. Decidiu, por fim, colocar os conselhos da bruxa em prática. Encheu a banheira e sentou-se com metade do corpo para fora, decidida a proteger seu tesouro recém-obtido de qualquer gota de água.

 

   Teve que esticar razoavelmente o braço para alcançar o caderno, fazendo sua haste floral quase madura balançar com o esforço. Apanhou então a nota da bruxa com a receita daqueles maravilhosos cristais. Já preparada para a caligrafia apressada da anfitriã, a moça conseguiu ler mais facilmente as instruções dessa preparação.

 

   Percebeu logo de cara que a estrutura textual era praticamente idêntica à anterior, ainda que trouxesse elementos diferentes: essa deveria ser preparada preferencialmente em lua cheia. A única aliada botânica era a alecrim, denominada no feminino e evocada por sua capacidade de purificação da mente. A bruxa instruía usar o adoçante xylitol, clamando que este apaziguasse o desespero e a ansiedade que turvam o discernimento. A mica, pigmento mineral, também fora evocada — dessa vez na cor dourada, tal qual a luz das tochas de Hécate. Por fim, havia uma evocação à senhora das tochas, um pedido para que imbuísse com seu poder aquela pharmaka.

 

   Ao terminar a leitura, a moça já ia lançando a página de maneira descuidada para fora da banheira. A lembrança, no entanto, do quanto a bruxa protegia seus pertences lhe veio à mente, e sentiu-se injusta em tratar com desleixo algo que recebera de alguém que trabalhava com tanto esmero. Levantou-se com cuidado para não molhar o entorno da tina, colocou a folha avulsa dentro do diário e embrulhou-o no próprio vestido para garantir que não molhasse.

 

   Voltou a mergulhar. Alcançou o sabonete que estava ali por perto, lavando com cuidado cada parte do corpo, em especial as raízes e a haste floral. Percebeu uma textura diferente ao tocá-la — mais firme, quase pronta — mas não parou para pensar no que isso significava.

 

   Destampou então o frasco, na esperança de que o aroma a ajudasse a decidir o que pediria a Hécate. O aroma fresco do alecrim fez as pétalas da moça tremularem. Recobrou os planos e desejos que povoavam seu coração antes da descida no outono, e comparou-os aos aprendizados que vieram depois. Um ou dois desejos haviam sobrevivido ao inverno. Estava decidido: invocaria a intercessão de Hécate para encaminhá-la até eles.

 

Despejou um pouco dos cristais na mão, espalhando-os suavemente pelo corpo, tal como constava nas instruções da bruxa. Ao derreterem, os cristais traziam um frescor acentuado pelo alecrim, e imprimiam um brilho dourado que se espalhava pelo corpo conforme o massageava. A jovem riu sozinha, encantada, e enxaguou-se em seguida — mesmo a contragosto — conforme indicava a receita. Algumas partículas de brilho permaneciam por toda a extensão daquela jovem planta, e ainda mais dourada era a água na bacia.

 

   Foi então que a luz da lua alcançou a janela e se estendeu sobre a água do banho, e a moça, atraída pelo reflexo, viu pela primeira vez sua própria haste — mais aberta do que quando a bruxa a deixara a sós, as pétalas leitosas já quase sem vestígio do verde inicial do botão.

 

   Havia ali uma tentação perigosa: a primeira pétala, cuja pontinha a bruxa notara despontar, começava sutilmente a tornar-se côncava e a tombar para trás. A moça cedeu e já ia puxando, quase instintivamente, aquela pétala, ávida para descobrir o que havia em seu interior.

 

   Por sorte da moça, a bruxa vivia sozinha, dispensando a necessidade de uma tranca no banheiro. Não estava acostumada a receber visitas e, mesmo se esforçando para dar alguma privacidade, não possuía muitas habilidades nesse sentido. Em uma tentativa honesta, porém falha, gritou já na soleira da porta:

 

   — Ei, trouxe-lhe um vestido antigo meu, para que não tenha que vestir sua roupa usada.

 

   Convencida de que alertara a moça o suficiente, empurrou a porta e entrou. A imagem que encontrou, no entanto, chocou as duas — visitante e anfitriã.

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